Algumas coisas sobre as quais eu escutava falar muito durante a infância sumiram da ordem do dia.
Areia movediça, por exemplo. Os roteiristas de Caverna do Dragão e He-Man deviam ter um apreço especial por esse tipo de formação. Andou sem olhar por onde pisa, e lá estava, vitoriosa, a poça de areia movediça a tragar o personagem para subterrâneos nunca dantes esquadrinhados. Uma vez lembro de ter lido na Super Interessante, nos idos dos anos 80 [eu, recém letrada, portanto] que a coisa certa a fazer ao cair numa região de areia movediça era ficar bem paradinho e esperar socorro. Quanto mais movimento, mais o cidadão afunda. E, claro, ao tentar resgatar alguém que está afundando, não é para entrar na poça. O certo é estender uma corda, uma vara, algo do tipo.
Areia movediça, pelo menos, existe. É uma combinação de um areia, sacana de tão fininha, com água. Mas, e unicórnio? Mais uma vez, Caverna do Dragão. Não é só aquele quadrúpede ignóbil, que sempre frustrava os planos da galera de voltar para casa, que tenho na memória. Unicórnios, pelo que me recordo, eram seres recorrentes nas conversas infantis. Qual não foi minha surpresa ao ter a confirmação - ainda na tenra idade - que não, cavalos com um chifre reinando na testa não existem! Como é que mamífero com bico existe – ornitorrinco – e cavalo com chifre não pode? Incompreensível.
[também me causou espécie saber que a nave da Xuxa não voava]
Mas, arguta, sempre soube que planta carnívora não passa de um matinho que tem uma meleca que gruda e digere insetos. E que tinta invisível e máquina do tempo são nada mais que criações de mentes inventivas. Uma grande pena, aliás.
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sexta-feira, 11 de maio de 2007
segunda-feira, 23 de abril de 2007
Domingo em São Paulo
O avião estava lá desde que ela se entendia por gente. O que não conta muito tempo. A praça atendia mesmo por ‘Praça do 14 Bis’. Todo domingo a mesma coisa: o bicho inclinado, ameaçando um vôo. Inerte. Mesmo assim, desafiando as leis da física, ela via movimento. E escutava o ruído onomatopeico que saía da própria garganta infantil.
Era só o carro iniciar o contorno da rotatória que lá estava ela: mãozinhas no vidro, olhos fixos, a boca a emitir o ronco do motor e a cabeça inclinada, acompanhando o giro do avião.
Não adiantava a mãe falar que aquele não era o 14 Bis que voou na França em volta daquela torre gigante, era inútil explicar que ele nunca sairia do centro do gramado e também em vão a garota sonhava em pular a grade que tomava conta da aeronave, escalar o monumento e assumir o comando.
Deixado pelo caminho o avião, já no clube das regatas, outro encontro semanal: a tenista em posição de saque. Sempre com pose vitoriosa, olhando para as piscinas do Tietê.
-Mãe, quem é?
-É a Maria Esther Bueno, única brasileira a ganhar em Winbledon.
Era só o carro iniciar o contorno da rotatória que lá estava ela: mãozinhas no vidro, olhos fixos, a boca a emitir o ronco do motor e a cabeça inclinada, acompanhando o giro do avião.
Não adiantava a mãe falar que aquele não era o 14 Bis que voou na França em volta daquela torre gigante, era inútil explicar que ele nunca sairia do centro do gramado e também em vão a garota sonhava em pular a grade que tomava conta da aeronave, escalar o monumento e assumir o comando.
Deixado pelo caminho o avião, já no clube das regatas, outro encontro semanal: a tenista em posição de saque. Sempre com pose vitoriosa, olhando para as piscinas do Tietê.
-Mãe, quem é?
-É a Maria Esther Bueno, única brasileira a ganhar em Winbledon.
Que coisa chata, deixar lá, tão paradinhas, coisas tão importantes.
***
Entre uma página e outra da minha monografia, achei esse textim que escrevi em 2003. Pelo que lembro, o avião em questão é no Campo de Bagatelli, zona norte de São Paulo.
domingo, 1 de abril de 2007
Mono
Quando tenho febre sou tomada por uma sensação que encontra um correspondente lá atrás. Na infância, quando minha mal traçada caligrafia era problema, eu tinha um pânico característico quando a professora estava chegando ao fim da lousa. Ela, prestes a apagar a metade anterior, e eu, que ainda não havia terminado de copiar o que em breve seria não mais que pó de giz. Era uma sensação de “não vai dar, não vai dar”, acompanha de um gelado ruim nas têmporas.
O mesmo acontecia quando a professora decidia vistar os cadernos. Eu bem que preferia que meu nome estivesse no comecinho da chamada e ir logo para a degola. Mas tinha que esperar até o número vinte e poucos da lista para mostrar meus alfarrábios e receber o olhar da reprovação professoral. Zelar pela ordem e “limpeza” [essa era a palavra temida] nos cadernos nunca foi meu forte. Só nos cadernos.
O primeiro registro desse gelado foi quando meu irmão me disse, em 1985 ou 86, que, na próxima vez que o cometa Halley desses as caras na órbita terrestre, minha mãe não estaria mais por aqui. Eram férias de verão; estávamos numa casa alugada em Caraguatatuba. Minha reação foi agarrar a esquadria da janela bem forte e olhar a rodovia que, à noite, parecia um rio de lava. Lembro do nó na garganta e que encostei de leve o beiço no metal gelado da janela. Gelado como as têmporas. Foi pura maldade dele, eu acho.
Esse gelado me acompanha em situações que, a princípio, parecem insolúveis. E, não sei a razão, quando tenho febre, meu cérebro fica meio besta, e é como se eu estivesse diante da lousa que, inevitavelmente, vai virar pó branco de giz.
Gostaria de sentir pelo menos um arremedo desse gelado nas têmporas em relação a minha monografia. Seria um benefício.
O mesmo acontecia quando a professora decidia vistar os cadernos. Eu bem que preferia que meu nome estivesse no comecinho da chamada e ir logo para a degola. Mas tinha que esperar até o número vinte e poucos da lista para mostrar meus alfarrábios e receber o olhar da reprovação professoral. Zelar pela ordem e “limpeza” [essa era a palavra temida] nos cadernos nunca foi meu forte. Só nos cadernos.
O primeiro registro desse gelado foi quando meu irmão me disse, em 1985 ou 86, que, na próxima vez que o cometa Halley desses as caras na órbita terrestre, minha mãe não estaria mais por aqui. Eram férias de verão; estávamos numa casa alugada em Caraguatatuba. Minha reação foi agarrar a esquadria da janela bem forte e olhar a rodovia que, à noite, parecia um rio de lava. Lembro do nó na garganta e que encostei de leve o beiço no metal gelado da janela. Gelado como as têmporas. Foi pura maldade dele, eu acho.
Esse gelado me acompanha em situações que, a princípio, parecem insolúveis. E, não sei a razão, quando tenho febre, meu cérebro fica meio besta, e é como se eu estivesse diante da lousa que, inevitavelmente, vai virar pó branco de giz.
Gostaria de sentir pelo menos um arremedo desse gelado nas têmporas em relação a minha monografia. Seria um benefício.
terça-feira, 27 de março de 2007
Geralda
Quando eu era criança e morava em Santana, os trajetos eram muito ricos de personagens. Eu, minha mãe e meu irmão andávamos a pé para cima e para baixo (meu pai, só nos finais de semana) e assistíamos a toda a sorte de espetáculos do cotidiano.
Do outro lado da calçada de um quartel azul calcinha da rua Alfredo Pujol tinha a Geralda. Esse quartel, se as informações familiares estão corretas, era da Força Pública - que depois virou a Polícia Militar de São Paulo. A Geralda vivia na rua, maltrapilha, a carapinha suja colada na cabeça e uma garrafa na mão. Não ofendia os passantes, mas era implacável com o muro do quartel.
Seu lugar preferido era a frente de um boteco onde um gato amarelo dormia sobre um saco de batatas. A dona, uma ruiva gorducha e sardenta, vivia com os óculos de leitura descansando sobre uns peitões. O volume dos peitões deformava o símbolo do São Paulo Futebol Clube, cuja camiseta era o uniforme de trabalho da tal dona. E de-ze-nas de pôsteres do SPFC adornavam as paredes. Minha mãe jurava que nunca compraria as batatas dormidas do gato amarelo. Eu achava sensato.
Rezava a lenda que a Geralda foi abandonada pelo marido, que trabalhava ou morava, sei lá, no quartel (que hoje é de um muito bem comportado bege). Aí descambou - e descontava no muro.
Tempos atrás imaginei a história da mendiga da minha infância. Ficou triste. Mas ela não parecia feliz, mesmo.
Lá vai Geralda arrastando o saco de feltro e as decepções da vida. Lá vai Geralda, com o ventre murcho, descendo a ladeira a passo largo e solto. Desleixada, maltrada, o amor não escolheu Geralda.
Mas Geralda escolheu viver para o amor. Única possibilidade de ver o mundo, Geralda vive com o coração. Só o dela, porque o que julgou ter conquistado, esse se perdeu.
Era soldado da Força Pública. Preto retinto, como Geralda, era homem simples, um sacrifício virar cabo.
Tinha orgulho da farda do marido, lavava, passava, pregava botões. Adorava exibir o uniforme no varal para o mulherio da vizinhança. É do meu homem, pensava, enquanto cuidava para que o cachorro passasse longe. Pensava bem que a vizinha podia passar e olhar a roupa molhada e limpa do cabo, só para Geralda sentir o cheiro da inveja alheia.
Um dia a farda sumiu do varal. O acontecido não passou incólume, o povo notou e falava que o homem havia se escafedido junto com o uniforme.
-“Foi servir no Araguaia”, justificava Geralda.
O desespero só crescia. Tamanha angústia que, muito antes do previsto, o filho de Geralda com o cabo escorregou para fora da barriga. Chegou tão cedo o moleque, com medo de desencontrar do pai, que ainda não estava pronto para a vida.
Geralda ficou ainda mais só. Tremia só de pensar no que ia contar para o marido quando ele voltasse e não encontrasse o moleque já engatinhando.
Atemorizada, decidiu ela também fazer as malas e ir encontrar ser homem. A mala desmanchou com o tempo, os dentes apodreceram, a roupa gastou e Geralda cansou. Sem notícias, decidiu esperar do lado de fora do quartel.
Tomava um trago para agüentar o frio da noite, bebia pinga para o dia passar depressa. Às vezes, atacava o muro do quartel com um pau a mão e ofensas na ponta da língua . O descontrole acaba com as forças de Geralda. O jeito era sentar no meio-fio e esperar a volta do cabo. Ele havia de entender que o neném não pôde esperar.
Do outro lado da calçada de um quartel azul calcinha da rua Alfredo Pujol tinha a Geralda. Esse quartel, se as informações familiares estão corretas, era da Força Pública - que depois virou a Polícia Militar de São Paulo. A Geralda vivia na rua, maltrapilha, a carapinha suja colada na cabeça e uma garrafa na mão. Não ofendia os passantes, mas era implacável com o muro do quartel.
Seu lugar preferido era a frente de um boteco onde um gato amarelo dormia sobre um saco de batatas. A dona, uma ruiva gorducha e sardenta, vivia com os óculos de leitura descansando sobre uns peitões. O volume dos peitões deformava o símbolo do São Paulo Futebol Clube, cuja camiseta era o uniforme de trabalho da tal dona. E de-ze-nas de pôsteres do SPFC adornavam as paredes. Minha mãe jurava que nunca compraria as batatas dormidas do gato amarelo. Eu achava sensato.
Rezava a lenda que a Geralda foi abandonada pelo marido, que trabalhava ou morava, sei lá, no quartel (que hoje é de um muito bem comportado bege). Aí descambou - e descontava no muro.
Tempos atrás imaginei a história da mendiga da minha infância. Ficou triste. Mas ela não parecia feliz, mesmo.
Lá vai Geralda arrastando o saco de feltro e as decepções da vida. Lá vai Geralda, com o ventre murcho, descendo a ladeira a passo largo e solto. Desleixada, maltrada, o amor não escolheu Geralda.
Mas Geralda escolheu viver para o amor. Única possibilidade de ver o mundo, Geralda vive com o coração. Só o dela, porque o que julgou ter conquistado, esse se perdeu.
Era soldado da Força Pública. Preto retinto, como Geralda, era homem simples, um sacrifício virar cabo.
Tinha orgulho da farda do marido, lavava, passava, pregava botões. Adorava exibir o uniforme no varal para o mulherio da vizinhança. É do meu homem, pensava, enquanto cuidava para que o cachorro passasse longe. Pensava bem que a vizinha podia passar e olhar a roupa molhada e limpa do cabo, só para Geralda sentir o cheiro da inveja alheia.
Um dia a farda sumiu do varal. O acontecido não passou incólume, o povo notou e falava que o homem havia se escafedido junto com o uniforme.
-“Foi servir no Araguaia”, justificava Geralda.
O desespero só crescia. Tamanha angústia que, muito antes do previsto, o filho de Geralda com o cabo escorregou para fora da barriga. Chegou tão cedo o moleque, com medo de desencontrar do pai, que ainda não estava pronto para a vida.
Geralda ficou ainda mais só. Tremia só de pensar no que ia contar para o marido quando ele voltasse e não encontrasse o moleque já engatinhando.
Atemorizada, decidiu ela também fazer as malas e ir encontrar ser homem. A mala desmanchou com o tempo, os dentes apodreceram, a roupa gastou e Geralda cansou. Sem notícias, decidiu esperar do lado de fora do quartel.
Tomava um trago para agüentar o frio da noite, bebia pinga para o dia passar depressa. Às vezes, atacava o muro do quartel com um pau a mão e ofensas na ponta da língua . O descontrole acaba com as forças de Geralda. O jeito era sentar no meio-fio e esperar a volta do cabo. Ele havia de entender que o neném não pôde esperar.
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