terça-feira, 25 de setembro de 2007

Inclusão oportunista

Os únicos programas de TV que, invariavelmente, contam com legendas para espectadores surdos, são as propagandas de partidos políticos. Esse tipo de inclusão me desanima, sinceramente. Porque é de fachada, é uma forma de oportunismo eleitoreiro para inglês ver. Não boto fé no caráter "cidadão" que essas legendas possam ter - aliás, que palavra mais promíscua essa, cidadão, cidadania.
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Por que SÓ na propaganda partidária, quando o futuro candidato fala o que quer, sem ninguém para argumentarcom ele, é que as tais legendas estão presentes?
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Gostaria de saber se a pessoa surda consegue ler lábios dos atores/apresentadores na TV.
E, caso não consiga - e, portanto, não tenha acesso aos programas de TV - o que diabos ela estaria fazendo na frente da TV? Esperando a propaganda partidária começar?
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Produtores de propagandas partidárias: vão carpir uma data.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Suspiro





"A saudade é a memória do coração."

(Coelho Neto)




terça-feira, 18 de setembro de 2007

Em caso de dúvida


Quando não se sabe o que fazer, o melhor é ficar onde está.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Notas de aeroporto

(escrito em 15 de setembro)

Eu, que tanto apreço tenho pelas palavras, sinto que seu uso constante e acurado, por vezes, é desnecessário. Digo mais: deveria ser desestimulado. Quero a comunicação do sentido. Abaixo o código. Perigosas, as palavras vão ao centro da questão, desnudam e apontam o dedo para o nariz do sentido.

- É isso, é não outra coisa, o que você sente. Eu sou o que você sente! – dizem as palavras, inquiridoras e infalíveis.

Ah, tão infalíveis as palavras. No fundo, gosto delas.

Depois que um sentimento é agraciado com a função definidora da palavra, depois de enquadrado nos rigores do significado, não tem mais volta.

Mas nem sempre é de sentido que se carece. Quando a subjetividade já definiu a matéria de que é feito o sentimento, todas as palavras do mundo são poucas. O sentido é superior à palavra.

Procuro um estado em que a necessidade da palavra se esfacele. Em que elas voltem para o dicionário, junto com a prepotência do poder de ditar nomes.

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Minha rebeldia para com as palavras é novidade. Meu apreço, não sei se o qualifico de habitual ou anterior, está de folga.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Ninguém perguntou, mas... - I

Dificilmente uma pessoa morreria engasgada com um suspiro.
Em contato com a saliva, a mistura de açúcar e clara de ovo derrete. Acredito que o mais grave a acontecer com um sujeito que fique com um suspiro entalado na glote é ficar sem ar só um curto período de tempo. Em seguida, o suspiro derrete e desobstrui a passagem de ar.
Ressalva: estou falando de suspiros de qualidade, que, ao menor sinal de umidade, se desmacham irresistivelmente.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

O pensamento que (o)correu

Aí eu vi a moça na fila e pensei o pensamento dela. Às vezes, não sempre, acontece.
Era mais ou menos assim que as palavras andavam correndo na cabeça da moça:

-“O que você faz comigo que quando me olha eu tenho vontade de ir até você e te respirar, te absorver, ser um pouco você? O que eu faço comigo que, quando te vejo, me entrego? Será que longe de você, eu vou saber ser eu do jeito que sou quando estou com você?”

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Dúvida cruel III

Na época em que nem todo mundo tinha telefone em casa, qual era o comportamento padrão das visitas?
Eu acho que as pessoas apareciam na casa dos outros de surpresa, sem mais nem menos. Devia ser bem chato. Você estava lá, no sacro-santo recesso do lar, quase embarcando num sono dominical, aí chegava um bando de parentes, sem a menor cerimônia.
Aquela música, que fala do Arnesto que convidou prum samba e os convidados deram com o nariz na porta, me reforça essa idéia. O Arnesto deve ter esquecido do combinado ou, então, quis mesmo é fugir dos camaradas. Vai saber. Às vezes, ele teve uma emergência e teve de sair às pressas. E eu aqui julgando o cara.

O telefone fixo, o celular e o interfone facilitam muito a vida nesse ponto.
Inclusive para quem quer fugir de visitas fora de hora.

Mas acho que há uma perda nisso. Devia ser gostoso ficar esperando, será que eles vêm ou não vêm?

domingo, 24 de junho de 2007

Jornalismo gonzo

Foi um programa inusitado para uma tarde de domingo. Hoje, durante o plantão de domingo no jornal, entrei em uma galeria pluvial. Isto é, entrei no buraco que existe embaixo daquelas tampas redondas de metal, no meio da rua.
Tinha uma aguinha esbranquiçada correndo lá embaixo, mas não era para ter nada já que, teoricamente, a galeria é para drenar água de chuva. O lugar é bem grande - chama-se ponto de visita - e fica-se em pé lá dentro.
O que me chamou a atenção é que eu imaginava que havia baratas ou outros bichos por lá, e não vi nadinha. Só um cheirinho ruim, mas completamente tolerável. E vários túneis, as galerias propriamente ditas, que vem de um lugar e vão para outro, geralmente um córrego.
Entre a subida e decida, consegui sujar as mãos, a camiseta e a calça em três lugares diferentes.
Faz parte.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Dúvida cruel II

Quem primeiro teve a idéia de criar cadeias será que pensou em:

1) Cercear a liberdade alheia como forma de punição?

ou

2) Tirar o mau elemento de circulação para garantir a sobrevivência da espécie?

segunda-feira, 11 de junho de 2007

A vida é treino

Minhas elocubrações infantis eram, em sua maioria, muito ricas.

Um dia eu perguntei para minha mãe como era depois da morte.

A resposta católica foi a da vida eterna, que se tivéssemos merecimento, iríamos para um lugar bem bom viver a eternidade. Mas só em espírito, claro.

A resposta fez todo o sentido, porque uma coisa, já naquela época, me era inconcebível: que a vida simplesmente acabasse.

Lembro-me de, aos três ou quatro anos, estar agachada no quintal de cerâmica da casa de SP, a mãe logo ao lado na área de serviço, ao alcance da voz. E pensar: "mas esse 'eu' que está pensando agora, agorinha, não é possível que ele pare de pensar um dia". Não conseguia conceber a não-existência. Depois da confirmação católico-maternal, me tranqüilizei: 'eu' continuaria a existir e a pensar, onde quer que fosse.

Essa certeza me acompanha desde então (ou desde sempre, não sei) e me faz acreditar com mais força na idéia de que a vida é treino. Um dia, se a gente treinar bem treinado e tiver merecimento, o 'eu' vai para um lugar tão inimaginavelmente danado de bom que não volta mais.

É, a vida é treino.