terça-feira, 25 de maio de 2010

Concentração final

Amanhã de manhã 125 pessoas que se viram umas duas ou três vezes na vida vão ter um último encontro civil antes de ingressarem na vida milica. É a última etapa do Estágio de Adaptação de Oficiais Temporários 2010, em Belo Horizonte.
Há quase um ano atrás, éramos eu e meus 160 e tantos colegas. Lembro perfeitamente da fila do lado de fora do quartel, de entrar no Ciaar e não saber para onde ir, de esperar naquelas poltronas azuis, de conferir e reconferir os muitos documentos.
Na semana seguinte, as poltronas do Auditório Doorgal Borges entrariam na minha cabeça para nunca mais sair, muitas horas insones foram passadas nelas. Em poucos dias parecia que eu conhecia o Ciaar desde sempre e, algumas daquelas pessoas, então, nem se fala.
Bons tempos.
Torço para que a turma do EAOT 2010 goste tanto do Ciaar quanto a maioria das pessoas da minha turma curtiu. Os próximos três meses não serão nada fáceis, mas é um difícil que fica bom. É inesquecível e deixa uma saudade absurda.

domingo, 23 de maio de 2010

Andanças pela Glória

Agenda do Fluminense do ano de 1997.

Tostex enferrujado.

Video-game Gemini (com joystick original).

Retratos de pessoas anônimas.

Edições do Círculo do Livro.

Liquidificador com copo de vidro.

Sapatos, tênis e sandálias com muitos quilômetros rodados.

Aplique de cabelo descabelado.

Cooler de CPU.


Tudo isso, lado a lado, sobre um pano sujo estendido na calçada.

Toda a sorte de quinquilharias, usadas e mal conservadas, está à venda nos ambulantes das ruas da Glória e do Catete. Os ambulantes, tão mal ajambrados quanto suas mercadorias, são moradores de rua ou gente que aparenta ser muito, muito pobre.

É uma visão ao mesmo tempo melancólica e curiosa.

Sabe aquela tornozeleira de búzios que você comprou em Porto Seguro em algum verão dos anos 90 e nunca mais usou? É esse tipo de coisa que os ambulantes da Glória e do Catete vendem.

Nunca parei para perguntar o preço de nada, mas já pensei que alguns cacos velhos que surgiram com a minha mudança bem que serviriam para o mercado...

***

A Glória é um bairro muito antigo e que já teve seus dias de gramur&grítter. A família imperial, no período joanino, frequentava a Igreja da Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Inclusive, foi lá de Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Michaela Gonzaga, filha de D. Pedro I e neta de D. Joao VI, foi batizada, em 1819.

(suponho que o padre imperial deve ter recobrado o fôlego pelo menos um par de vezes entre o "Maria" e o "Gonzaga")

Oficialmente, a Glória é o primeiro bairro da zona sul do Rio, mas eu acho que tem uma baita cara de Lapa e Centro também. Digo isso porque vejo umas construções antiquíssimas, dessas que você para em frente e fica tentando descobrir o que é, ou melhor, o que foi. Dessas que tem umas carrancas de granito que põe medo na gente.

Uma das fachadas que mais me chamou a atenção é a da foto.


É a sede da Igreja Positivista do Brasil, que foi fundada no século XIX, e sobre a qual eu nunca tinha ouvido falar na minha vida. Esse lance de ser governado pelos mortos, pelo que entendi, é o seguinte: os positivistas cultuam a memória dos mortos por meio do legado que deixaram para a posteridade. É a imortalidade subjetiva da alma. Na nave central, há bustos de 13 personalidades da religião, literatura, filosofia, ciência e política, gente tipo Shakespeare, São Paulo e Aristóteles.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Os Hómi Ltda.



Encontrado o lar, o passo seguinte é torná-lo habitável. Motivo de alegria, finalmente, depois de meses e muita procura, ter achado um teto para chamar de meu. E ficar imaginando onde vai ficar cada coisa, como deixá-lo mais aconchegante.

Despesas à vista, mas com a satisfação de estar empregando bem o suado soldo, pensando no benefício que virá.

Nesta etapa, os hómi entram em cena.

A moça depende dos hómi para transportar a mudança do Paraná para o Rio de Janeiro. Depende dos hómi que vão entregar os eletrodomésticos SEM MARCAR HORA.

Depende do hómi que converte fogão para gás de rua - conversão de fogão dispensa a leitura das Sagradas Escrituras, ao contrário de conversão de gênti.

Depende do hómi que instala varal de teto e prega armário na parede. E que deu os canos três vezes consecutivas entre segunda e quarta-feira para terminar o serviço.

Depende do hómi que monta guarda-roupa e que, se Deus quiser, vai depois do feriadão.

O problema é conciliar tudo isso com o pouco tempo que sobra depois do expediente. Tem que pedir peloamordeDeus se dá para entregar após às 17 horas, se dá para tentar, mais ou menos, marcar hora (por favor, por favor).

***

Conselho do hómi do fogão, ao detectar que eu não estava com gás no apê. "A senhora liga lá na Ceg e fala que vai morrer se não tiver gás, que tem gente com úlcera na família e que TEM QUE cozinhar em casa. Senão, vão demorar um mês."

Obrigada pelo conselho, hómi. Meda.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Deveras aprazível

Rio de Janeiro, hoje.





domingo, 31 de janeiro de 2010

O ramerrão

A tarefa naquela manhã dos anos 90, que pode ter sido de alguma série do ginásio, hoje Ensino Fundamental, era interpretar algumas frases. A professora de redação havia escrito várias na lousa, e acho que era um jeito de matar aula. Bem, as aulas dessa professora eram intermináveis janelas no nosso horário...
Parecia não haver critério nem rigor estilístico. O repertório variou de uma sentença que tinha "a mosca da minha sopa" no meio até frases de escritores da literatura nacional. Uma em especial em marcou.

"A vida é um ramerrão solitário."

Que eu me lembre, era atribuída a algum autor.
Hoje, mais de uma década depois, procurei no Google e não achei o dono. Não acharia estranho se a frase não estivesse reproduzida fidedignamente, aliás, seria a cara dessa professora se fosse quase a frase original.
Para mim, ramerrão solitário dá uma ideia de uma multidão solitária, um bando de gente indo para o mesmo lugar, porém, isoladamente. Uma espécie de Círio de Nazaré pagão - todos vão juntos, mas cada um olhando para sua própria dor. Digo isso com base na cara da palavra. Acredito que as palavras têm personalidade própria, inclusive, há aquelas que só saem casa de cartola e casaca, de tão requintadas que são. Por outro lado, há aquelas descartáveis feito um lanche do McDonalds.
É o caso da palavra diferenciado. Pobre coitado, um dos verbetes mais promíscuos do vernáculo.

Não tenho um dicionário aqui (que falta faz minha casa!) e, uma googlada mixuruca afirma que ramerrão que dizer tarefa rotineira e enfadonha. Se for isso mesmo, minha interpretação perde o sentido.

Mas permanece a figura do Círio pagão.

***

Foi graças a essa professora que me tornei jornalista.
Ela era tosca, mas dava umas dentro.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Os insetos&eu

Eu tenho muitas histórias com insetos. Um dia, quando era estudante de jornalismo na UEL, uma abelha se enroscou nos meus cabelos, em plena aula. Sacudi com a mão para ver se a abelha se mandava, levei uma picada e ganhei o indicador inchado por uns três dias. Tempos depois, enquanto fazia fotos com a câmera da faculdade, outra abelha se prendeu em mim. Ahá, pensei, não vou sacudir. A bicha saracoteou até cansar e acabou por picar meu couro cabeludo. Foi pior que o dedo inchado: fiquei com os gânglios atrás da orelha inchados e não conseguia nem colocar óculos, de tão dolorido.
Lá pelo terceiro ano da faculdade, um bichinho minúsculo e desconhecido me picou no pé. Dessa vez o corpo todo reagiu, de uma vez só, e fui parar no Hospital Universitário.
Desde então fui atacada por outros insetos e tive alguns pequenos inchaços. Nem estranho quando isso acontece.
Mas, ontem, a criatura abaixo investiu contra mim.


Medonho, alado, listrado e com a bunda a pulsar, cheia de veneno.
Foi na perna, e senti dor do dedinho ao quadril. Achei que ia ter outro troço desses de ir para o hospital mas, passado o pavor e a dor iniciais, vi que não era grave. Por questão de honra e segurança dos habitantes da casa, prendi o pesadelo com listras dentro de um copo de Nutella.
Ele está lá até agora, encostado em um canto do corredor. Dei boa noite e bom dia. Tudo o que ele faz é escalar as curtas paredes de vidro e escorregar em seguida.
Tenho um prisioneiro de guerra, e não sei que destino dar a ele.
Gostaria de saber que bicho é. Parece um marimbombo tamanho GG. Será que é vespa?
Ao vê-lo preso no copinho, fico com pena. Deve estar ruim lá. Sem ressentimentos pelo ataque.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A União faz memória

Muito antes da internet existir, antes de os programas de culinária serem tão interativos, antes mesmo de o açúcar de tornar um ingrediente abominável na dieta das pessoas saudáveis e esbeltas, uma rede de donas-de-casa disseminava receitas gostosas e engordativas.
Elas trocavam segredinhos de forno e fogão entremuros, ensacando as compras em cartuchos de papel pardo no supermercado. Davam dicas, mas não entregavam o ouro, afinal, descobrir a quantidade exata e maneira correta de misturar e levar ao fogo os ingredentes poderia significar ter sua receita eleita. Eleita para figurar nas páginas de um livro, ao lado de outras delícias, talvez fotografada em um cenário cuidadosamente preparado para, em um segundo, transportar o leitor para um chá na casa da avó, da tia ou da vizinha-boleira-de-mão-cheia. Pode ser chá, café ou conhaque, a bebida não importa muito, desde que servida numa xícara ou cálice de desing que não deixa dúvida: os anos eram os 70 e 80.
À cata de uma receita gostosa e não muito difícil para a ceia de Natal, fui buscar inspiração nos livros de receita União que a minha mãe guarda. Encontrei o "Chiffon do Coração" num livro que foi presenteado a minha mãe em 1975, por uma amiga já falecida. Eu simplesmente adoro folhear esse livros e me demorar na fotografias e no cheiro das páginas. São bolos, tortas, mousses, rosquinhas, toda sorte de doces servidos em travessas, adornados com guardanapos, açucareiros e espátulas cujos arabescos não deixam dúvidas da época.
Cada receita vem acompanhada do nome de quem a enviou com endereço. O "Chiffon do Coração" é atribuído à dona Rosina Aquino, da cidade de Lorena-SP. Ah, os tempos eram outros! Tenho minhas dúvidas se, nos atuais tempos bicudos as donas-de-casa deixariam seus nomes com endereço completo serem publicados num compêndio de receitas. O risco é, dias depois da publicação, a dona-de-casa começar a receber malas-direta com propaganda de utensílios de cozinha. É daí para pior. Algum golpista poderia tentar passar alguma lorota por telefone, usando como mote a tal da receita.
É um prazer extra ver a autoria das receitas. Descobri que as moradoras de Cornélio Procópio-PR eram assíduas colaboradoras dos livros de receita da União. Aliás, há uma receita que foi enviada por uma moradora da rua Professor João Cândido, em Londrina, por onde tantas e tantas vezes passei nos últimos nove anos. "Torta de Castanha do Pará" é a obra da dona Elizete O. Nascimento, que via a João Cândido do sexto andar. Na época da edição do livro, duvido que minha mãe soubesse que existia um lugar chamado Cornélio Procópio e, garanto, não imaginava que iria se afeiçoar tanto a Londrina.
Qual seria a utilidade de divulgar o endereço da doceira? Dar mais credibilidade e autenticidade na hora de uma amiga fazer inveja para outra, exibindo como troféu sua receita impressa e devidamente creditada? Ou permitir que as cozinheiras se visitassem, levando e trazendo segredos de forno? Acho improvável a segunda hipótese. Penso que o que deveria rolar, na verdade, era a troca de receitas pelo correio. Uma dona-de-casa de Tubarão-SC enviando receitas que ficaram fora do livro para uma colega sem rosto de Itu-SP, que escreve relatando que adorou a receita publicada e gostaria de receber outras por que seu marido provou e elogiou aquela.
Gosto tanto desses livros porque me falam de uma época em que a vida era mais simples, em que havia tempo para a mulher burilar seus talentos na cozinha. Um tempo em que havia gente suficiente nos lares para provar e dar palpites no resultado. Um tempo em que cortar o açúcar era apenas para os diabéticos.
A cada página uma pérola sobre os benefícios do açúcar. Tipo essa:
"Açúcar é energia, é o 'carvão dos músculos', na sábia expressão de Claude Bernard. Criança convenientemente suprida de açúcar é criança saudável, corada, bem disposta."
Sempre puxando a brasa para a sardinha da UNIÃO:
"Cuidado ao preparar a mamadeira do seu filhinho! Use somente açúcar UNIÃO, puríssimo, refinado a mais de 120 graus."
Pra mim, é quase como rever um álbum de fotos de uma época que deixou saudades.
***
Chiffon do Coração nada mais é que uma mousse de chocolate meio amargo.
Vamos ver se consigo executar a prescrição de dona Rosina.

domingo, 6 de dezembro de 2009

atchim

Estou com um daqueles resfriados liquefeitos. É só eu beber um copo de água que a coriza começa, bem chatinha. Enquanto estou com dor de cabeça e no corpo, o sol brilha e as pessoas mergulham no Oceano Atlântico.
Daqui de casa ouço os urros que vêm do Maracanã. Daqui a pouco o jogo começa. Acho bonito, e até gostaria de ter ido ao estádio, mas não compartilho.
Talvez um certo descompasso momentâneo, um delay, com a Cidade Maravilhosa.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Mudança de hábito

Tá quente. Muito quente.
A rosa amarela murchou devido ao calor. A violeta, idem.
O gadget do meu computador informa que está 24 graus agora no Rio de Janeiro, com chuva, mas a realidade me faz discordar. A sensação térmica dentro de casa é de uns 30. E NÃO está chovendo.
Por isso, aderi ao ventilador. Ele está lá mesmo, no teto, por que não liga-lo? É que eu nunca fui amiga de vento, é só ligar ventilador que meu nariz tranca. Porém, agora, isso passou. Bem interessante.
Outro hábito recém-adquirido é tomar água gelada. Nunca fui fã. Mas a água sai morna do filtro nesses dias (e noites) escaldantes. Do tipo que dá dor de barriga de tão quente. Então, agora tenho sempre uma pedrinha de gelo no copo de água. É um gelado diferente da água que sai da geladeira. Sei lá... um gelado mais refrescante e menos intenso.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O cheiro do aroma da essência

É possível que eu tenha pesadelos hoje ao me deitar. Visitei alguns apartamentos no final da tarde e encontrei pessoas e cenários medonhos. Mas o que mais me desgosta nos apartamentos que busco para alugar é o cheiro. Já começa na rua. Na zona sul do Rio tudo é velho, e o aroma de criolina, misturado ao calor úmido, chega em lufadas.
No Largo do Machado, assim que dona Zilda, a síndica, abriu a porta, senti um cheiro velho de umidade. Mas o apartamento é ajeitado, tem uma micro cozinha que, embora micro, comporta os eletrodomésticos. E tem uma sala grande, com taco brilhoso. E ainda tem uma pequena área. Embora, ao acender o lustre da sala, eu tenha tido uma péssima impressão e pensado que, à noite e sozinha, eu certamente sentiria medo do lustre. Um lustre pesado e antigo, de bronze, a me testemunhar. Mas ainda assim, estava valendo a pena. Porém, uns passos adiante, no quarto, encontro a origem do olor: manchas e tacos estufados no canto do cômodo. Impregnada pelo cheiro de coisa mau cuidada, olhei para dona Zilda, que me olhava por detrás de uma armação azul-marinho. Acho que não dá, eu disse, enquanto olhávamos para o teto: a mancha começava, bem discreta, no teto, e se imiscuía paredes abaixo.
Hoje foi um entra e sai de portas pantográficas. Aquelas portas de elevadores que parecem uma sanfona de metal. No Catete, cheguei a olhar um conjugado. A melhor coisa era a parte de fora. Dentro, além do pouco, pouquíssimo espaço, havia o buraco reservado para o ar-condicionado que é, literalmente, um buraco na parede. Em outro, fiquei estupefacta. Havia uma sala minúscula, uma sacada idem, um banheiro ibidem (com o chuveiro em cima do vaso) e uma coisa, no canto da sala, que era um arremedo de cozinha. Tudo velho e fedido. Notei uma saída para gás, onde, imagino, deve ser acoplado um mini fogão, e, o mais absurdo: uma cortina no-jen-ta, logo a frente, na tentativa de separar os ambientes. Se fiquei 25 segundos lá dentro, é muito.
A busca continua, companheiros.

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Amanhã não tem educação física, mó do apagão. Precisa economizar água.

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A culpa é da Madonna. "Jesus, apaga a luz", teria dito a diva.
Aliás, chamada de capa do Meia Hora ontem: "Ai, Jesus! Madonna conheceu a sogra."