domingo, 4 de setembro de 2011

Valentões virtuais


Percebo uma grande semelhança entre as discussões que ocorrem em listas de e-mail e as brigas de trânsito. No trânsito, salvaguardados pelos vidros elétricos, motoristas trocam todo tipo de ofensa quando se sentem desrespeitados. Nas listas de e-mail, assim como nos comentários de blogs e fóruns de debate pela internet, a distância física faz as vezes dos vidros elétricos e protege a identidade e os dentes. Mas há aqueles casos, e creio que isso esteja aumentando, em que o cidadão vai desde o comentário desagradável até a ofensa, passando por injúria, e assina os comentários ou e-mails.
Exemplo: recebi um e-mail de um colega empolgadíssimo dizendo que a empresa Ericsson estaria distribuindo gratuitamente notebooks com o objetivo de se equilibrar com a Nokia, que estaria fazendo o mesmo. E dava o caminho das pedras de como conseguir um computador. Não faz sentido, está na cara que é lorota de algum desocupado.
Esse e-mail foi respondido por um dos destinatários em tom de piada, dizendo que já havia ganho helicópteros e carros dessa maneira. Mais abaixo, ele aumenta o tom: "Pensando bem, é uma santa ingenuidade. Como é que alguém com um certo nível de inteligência é capaz de acreditar numa coisa dessas e sair passando tal mensagem adiante?"
Ou seja, chamou o cara de burro diante de toda a lista de contatos. O ponto que me chama a atenção é: a reação seria a mesma se fosse pessoalmente? Se essa ideia absurda de notebooks de graça tivesse surgido numa rodinha de amigos, a postura certamente seria outra - eu, por exemplo, morreria de vergonha alheia e contemplaria o teto - ainda que houvesse ironia. Em nome da boa educação e convivência, não falamos certas coisas que, até pensamos, mas não convém externar. Diante das 14 polegadas do LCD, surge uma valentia que é tão desnecessária quanto mau educada. Como se houvesse virtude em ter a última palavra.
Tem dias que o e-mail da minha turma de formação militar se parece com uma batalha campal. Pessoas que têm suas diferenças se dedicam a escrever parágrafos e mais parágrafos defendendo pontos de vista e apontando falhas dos desafetos. Os dez dedos que digitam são um indicador em riste. É muito chato, eu apago a maioria desses e-mails. Preguiça desse tipo de discussão inócua.
Chama a atenção o tempo de que dispõem para escrever seus monólogos. Me pergunto: fosse pessoalmente, essas pessoas estariam se atracando pelos quartéis? Duvido muito. Não aceito a desculpa de que estão "falando na cara", o que hipoteticamente é uma atitude honesta e legitimaria ofensas.
Tenho a impressão de que existe uma ansiedade pelo momento de soltar as feras. Que as pessoas aguardam o momento de poder explodir todas as insatisfações suportadas.
Semana passada houve um atropelamento na rua casa. Uma menina de uns 12 anos, que estava acompanhada pela irmã mais velha, foi atingida por um carro. Estava chovendo.
O carro parou uns metros adiante, a irmã mais velha foi correndo em direção carro (acho que queria evitar uma fuga) enquanto a caçula berrava de dor pelo pé visivelmente avariado. Foi inacreditável: a irmã da atropelada e uma passageira do carro ficaram batendo boca na calçada e trocando farpas ("vocês são loucos? isso é uma rua" e "você que não cuida da sua irmã", para ilustrar o repertório). Não fosse um cara grandalhão que passava pelo local pegar a garota no colo e dar uma enquadrada nas duas descontroladas ("menos, menos!! Tem que levar a garota pro hospital"), acho que a menina teria que ir pulando num pé só.
Felizmente, acho que é uma minoria que se xinga no trânsito e uma minoria que se dedica a desqualificar os contatos por e-mail. Aqui no Rio muitos carros têm colado o adesivo "Gentileza gera gentileza". Não podemos esquecer que o oposto também é verdade.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Zé Carioca Ltda.

A busca por dois pés de sofá na última semana me colocou frente a frente com a índole do carioca, no pior sentido que isso possa ter. Procurei em mais de dez lugares, entre madeireiras, lojas de decoração, casa de ferragens e fábricas de móveis.
Parece que fui a primeira pessoa no Rio a procurar pés para sofá. Até na internet a busca se mostrou infrutífera.
Escutei de tudo entre os comerciantes, na maioria das vezes, indicações tipo "aqui não tem, mas na loja ou na rua tal você encontra". Quando não encontrava o telefone, o jeito era ir pessoalmente e descobrir que a loja tinha de tudo, menos os pés.
Nessa peregrinação, conheci o Ribamar, que trabalha numa fabriqueta no Catete.
O cidadão ficou de vir em casa para ver o sofá na quinta. Ficamos esperando, mas não apareceu.
Tinha o telefone, mas não ligou.
Na sexta, achei uma loja na rua Buenos Aires, a qual já tinha ido, e ouvi as palavras mágicas. "Sim, temos pés de sofá". Soou feito música. E mais: o vendedor, o cearense Itaéce, fazia a colocação (que demandaria furar e serrar), "por fora".
***
Estamos em casa, aguardando o sujeito, quando toca o interfone.
"Sim, pode subir". É o homem do sofá. Bendito seja!
O homem foi recepcionado e já estava com a mão na massa quando eu entrei na sala e, susto! Não era o Itaéce, era o Ribamar, que estava umas 24 horas atrasado. E ainda trouxe a correspondência, a pedido do porteiro!
O homem foi devidamente situado do que estava acontecendo e, ao sair, no corredor, cruzou com o Itaéce - e ainda deu a dica do serviço que precisava ser feito.
Os pés foram instalados e o sofá voltou a ativa. O cearense cobrou bem cobrado, mas paguei sem reclamar.
***
Tenho minhas dúvidas se o Ribamar é carioca. Está mais para conterrâneo do Itaéce. Mas sua atitude foi do mais puro carioquismo - minhas dificuldades com prestadores de serviço no Rio já foram aqui narradas.
A minha reclamação não é com os cariocas em específico, mas com um tipo de comportamento que, aqui no Rio, parece regra. Uma insolência, um deixa para depois sem fim.
Se o problema for mesmo da cidade, tenho que me precaver e cultivar ao máximo minhas raizes paulistas e minhas aptidões paranaenses.
***
Tenho muito apreço pelo sofá, que já aguentou uma, duas e muitas pessoas.
A sala estava pouco convidativa com o sofá inutilizado.
O quanto essa procura me desgastou reforça o quanto minha casa é importante para mim. "Minha casa, minha casinha, merda para o rei e para a rainha", diria a bisavó portuguesa.
***
Para quem procura pés para sofá, vai a dica:
TAL HOUSE - Ferragens e Acabamentos
Rua da Conceição, 34
Centro
Rio de Janeiro-RJ

domingo, 17 de abril de 2011

Linha de produção

Existe uma tendência a automatizar praticamente todos os tipos de serviço, inclusive aqueles que, a meu ver, não são automatizáveis.
Meu irmão diz que, se você for ao Subway e pedir os ingredientes fora de ordem (a salada antes do queijo, por exemplo) vai dar um tilt na linha de produção e a atendente surta.
Eu já vi isso acontecer. Um dia, uma senhora subverteu a ordem fordista: entrou pela saída e pediu um "sanduíche de salaminho". A opção é inxexistente, muito embora o salaminho repouse do lado de dentro da vitrine.
"BMT, senhora?" A frase soou totalmente sem pé nem cabeça para a senhorinha, que olhou a atendente e disse, pausadamente, sa-la-mi-nho. Nada feito. A atendente grunhiu uma série de nomes de sanduíches, com aquele muxoxo típico de quem não gosta do que faz.
A pendenga só foi solucionada com a presença do gerente, que fez o óbvio e explicou quais sanduíches levavam salame. Embora óbvio, parece que essa atitude não consta das normas da casa, nem em caso de emergência.
Outro dia resolvi dar uma segunda chance a uma clínica de depilação que já havia sido reprovada uma vez. Voltei motivada pelo resultado, que é bom. O trato com o cliente, porém, é bizarro. Pelo Menos é o semi-trocadilho que batiza o local.
As funcionárias seguem com absoluto rigor o catecismo da franquia. Recepcionam as clientes com frases decoradas a respeito dos procedimentos adotados. Experimentei dizer que não tinha entendido e pedi para repetir. E a moça reproduziu até mesmo as pausas da respiração. É como um atendimento de telemarketing, com o agravante de ser cara a cara. Mais mecânico, impossível.
E isso não é tudo.
Não pode falar no celular enquanto depila.
Não pode tirar a sombrancelha com pinça. ("só com cera, senhora")
Não pode, resumindo, pedir a depilação do seu jeito. Nem adianta explicar como quer. A moça jamais vai contra o catecismo depilatório, independente do que a cliente argumente.
É como falar com paredes.

Isso me fez lembrar de um filminho que o Marcelo Adnet mostrou ontem em seu programa. Um cara, de carro, para num lugar qualquer e fala: "Como eu chego no bairro tal? É que eu vou lá torturar uma idosa". As pessoas abordadas dão a informação numa boa e simplesmente não escutam a parte absurda da frase.
Me lembra também uma cena de O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain, na qual ela vai visitar o pai e, ao percebê-lo totalmente aéreo e alheio à conversa, diz algo tipo "e então eu comecei a usar drogas e engravidei", ao que o pai responde com uhum, uhum.

É difícil ouvir tudo o que nos dizem.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Meta


Meta: até o final do mês escrever um post.

E tenho dito.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

domingo, 3 de outubro de 2010

"Viver ao teu lado é um tormento"

Algum dia da semana passada foi dia da secretária.

As duas do andar em que trabalho, senhoras na casa dos 50, foram parabenizadas com um lanchinho e flores dadas pelos respectivos chefes.
Enquanto os dois buquês de rosas vermelhas aguardavam a vez de serem entregues, tinham a companhia de uma cesta de café da manhã (acompanhada de um vaso de kalanchoe alaranjadas) e de um vaso de lírios brancos.
Chegaram até a copa por engano. O destinatário era uma mulher que, para fins de narração, será chamada de Misses Lane. A referida dama não foi encontrada, não havia ninguém com aquele nome no prédio, destinatário desconhecido.

No dia seguinte, motivadas pela curiosidade (mas usando a necessidade de dar destino às plantas como pretexto) as duas secretárias que haviam sido homenageadas na véspera violaram o cartão.

Um caligrafia feminina e arredondada dizia que sua vida havia mudado depois que Misses Lane havia entrado em cena, e que esperava que, um dia, pudessem estar a dois. No verso do cartão, a sentença: "Viver ao teu lado é um tormento".

Mil conjecturas mobilizaram os colegas. Em todas a hipóteses, a certeza de se tratar de um amor proibido. E nada de Misses Lane dar o ar da grça e acabar com o mistério.

Faltando uns dez minutos para o fim do expediente, ela aparece: uma moça de uns 35 anos, leve sobrepeso, cabelos e olhos pretos, rosto redondo. É contratada de um empresa terceirizada de limpeza e trabalha no prédio ao lado.

Eu não dei conta e ficar e ver a reação ao ler o cartão - àquela altura, já violado e lido.

Depois me contaram que ela disse que era casada e que o galanteador devia ser um vizinho. "Um garoto", ela disse.

Não colou. Uma das secretárias cinquentonas tem certeza de que o apaixonado é o chefe de Misses Lane.
Encontrei-a em seguida e não resisti. Perguntei: sendo casada, como ela entraria com a cesta em casa? Uma colega da terceirizada se prontificou a dividir a cesta com as outras colega.
Fica a dúvida: quem é o atormentado?

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Personagens da Glória

Ela se chama Kátia, mas podia ser Macabéa.
Cabelo curto tonhonhóin bem miudinho, brincos de arame em forma de coração. Discreta, só conversa com as clientes quando é solicitada. Em silêncio, se concentra nas cutículas e cantinhos mais difíceis e faz uma tromba enquanto trabalha.
Não é mau humor, me parece, é o mais puro estado de alienação do universo ao seu redor.


Já a flagrei esquadrinhando as clientes, nos momentos de folga entre um pé e uma mão.
Com os ombros levemente arqueados, faz o mesmo muxoxo de quando está operando o alicate. E espreita.
Observa e demonstra analisar com a mesma meticulosidade que dedica às unhas e membranas os gestos, expressões e narrativas de seu público.
É fato: a Macabéa postiça presta muito mais atenção na fala de outras clientes do que na de suas.

Não é bonita e nem feia. Não parece alegre e nem triste. E nem é engraçada.
Tenho a impressão de que ela é muito tímida.

Macabéa trabalha no salãozinho da rua debaixo de casa. Só tive a oportunidade de ser atendida por ela duas vezes - é a mais requisitada do salão.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A vida é trânsito II

Este blog existe desde 2007 e, ano a ano, escrevo cada vez menos posts.
Não é uma marca nada lisonjeira.

O nome "A vida é trânsito" surgiu de uma conversa com uma amiga na qual concluímos: a vida é trânsito. Hoje entendo que a vida é trânsito, é encontro, é desencontro, é um amontoado de gente tentando ser feliz.
Ninguém é feliz sozinho. Nas minhas mudanças de lar mais recentes - foram três cidades e quatro lares em menos de um ano - tive muitos momentos daqueles em que você, de repente, se vê em meio a um bando de gente semi-conhecida. É uma dureza. Ainda bem que entre os semi-conhecidos surgiram alguns amigos. Não são muitos, mas são amigos, e isso é o que importa.

Outro dia eu vi uma entrevista com o ator e roteirista argentino Ricardo Darín. A repórter, já no fim da entrevista, perguntava a respeito do casamento dele. Darín é casado há mais de 20 anos, separou-se e voltou para a mesma mulher. Percebi uma certa emoçãozinha típica das pessoas que se sentem agraciadas pela vida ao falar dela. Ele disse:

-"É ela quem, há 20 anos, faz com que as coisas pareçam estar sobre os trilhos".

Puxa vida, essa frase me soou tão bem!
"Estar sobre os trilhos" me dá a ideia de uma direção certeira, um rumo.
Um trânsito que sabe onde vai.
(Vejam: ele falou "pareçam estar". Pé no chão, o hermano.)

Explicado o nome do blog, vamos ao porquê do blog.

Sempre gostei de ler. Sempre gostei de escrever.
Penso que me explico melhor escrevendo do que falando.
E queria escrever sobre as coisas que gosto: observações da ordem da subjetividade muito pouco relevantes para o progresso da humanidade.

Penso neste blog como um caderno que vi ontem à venda numa papelaria que adoro no Largo do Machado.
Lindo, capa lisa de papel cartão, folhas de papel amarelado e encorpado.
Cantos arredondados.

Na contra capa, um aviso: caderno para escrita agradável.

É essa escrita que eu valorizo.
***
Post A vida é trânsito

domingo, 18 de julho de 2010

Feirinha da Glória

Gosto de arrumar as coisas. Como já disse aqui, anteriormente, acredito que a arrumação tem um poder terapêutico.
Mais por necessidade e menos por terapia, tenho arrumado algumas coisas minha casinha que ainda não foram para o lugar. Dia desses, abri a última caixa da mudança que AINDA estava fechada, depois de um ano de encaixotada.
Ora, se eu vivi mais de um ano sem as coisas que estavam lá dentro, poderia me desfazer delas.
MAS... aí abri a caixa, encontrei aquela camisolinha que eu nem lembrava mais que existia e, tenho certeza, vai ser muito últil quando o verão carioca der as caras. Aí reencontrei uma sandália querida e vestidos confortáveis. Separei duas pilhas: 1) coisas úteis ou aquelas sobre as quais impera o apego; 2) cacos velhos que, Deus meu, porque eu guardei?
As peças da "pilha 1" tiveram dois destinos: campanha do agasalho ou o meu armário (depois de lavadas para tirar o cheiro de guardado de tanto esperar).
A "pilha 2" não poderia ir para o lixo. Eram cacos velhos sim mas, já anotei em minhas andanças, esses cacos velhos são o ganha pão de muita gente nas ruas da Glória e do Catete.
E então, saí com três sacolinhas. Uma de roupas, uma de sapatos e uma de quinquilharia tipo maquiagem e brincos que me dão alergia.
Entreguei tudo para o Sebastião, um senhorzinho magrelo comerciante do rejeito alheio, que disse -"já tamo amigo!"
O estranho vai ser andar pela rua e ver meus ex-pertences à venda.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Concentração final

Amanhã de manhã 125 pessoas que se viram umas duas ou três vezes na vida vão ter um último encontro civil antes de ingressarem na vida milica. É a última etapa do Estágio de Adaptação de Oficiais Temporários 2010, em Belo Horizonte.
Há quase um ano atrás, éramos eu e meus 160 e tantos colegas. Lembro perfeitamente da fila do lado de fora do quartel, de entrar no Ciaar e não saber para onde ir, de esperar naquelas poltronas azuis, de conferir e reconferir os muitos documentos.
Na semana seguinte, as poltronas do Auditório Doorgal Borges entrariam na minha cabeça para nunca mais sair, muitas horas insones foram passadas nelas. Em poucos dias parecia que eu conhecia o Ciaar desde sempre e, algumas daquelas pessoas, então, nem se fala.
Bons tempos.
Torço para que a turma do EAOT 2010 goste tanto do Ciaar quanto a maioria das pessoas da minha turma curtiu. Os próximos três meses não serão nada fáceis, mas é um difícil que fica bom. É inesquecível e deixa uma saudade absurda.

domingo, 23 de maio de 2010

Andanças pela Glória

Agenda do Fluminense do ano de 1997.

Tostex enferrujado.

Video-game Gemini (com joystick original).

Retratos de pessoas anônimas.

Edições do Círculo do Livro.

Liquidificador com copo de vidro.

Sapatos, tênis e sandálias com muitos quilômetros rodados.

Aplique de cabelo descabelado.

Cooler de CPU.


Tudo isso, lado a lado, sobre um pano sujo estendido na calçada.

Toda a sorte de quinquilharias, usadas e mal conservadas, está à venda nos ambulantes das ruas da Glória e do Catete. Os ambulantes, tão mal ajambrados quanto suas mercadorias, são moradores de rua ou gente que aparenta ser muito, muito pobre.

É uma visão ao mesmo tempo melancólica e curiosa.

Sabe aquela tornozeleira de búzios que você comprou em Porto Seguro em algum verão dos anos 90 e nunca mais usou? É esse tipo de coisa que os ambulantes da Glória e do Catete vendem.

Nunca parei para perguntar o preço de nada, mas já pensei que alguns cacos velhos que surgiram com a minha mudança bem que serviriam para o mercado...

***

A Glória é um bairro muito antigo e que já teve seus dias de gramur&grítter. A família imperial, no período joanino, frequentava a Igreja da Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Inclusive, foi lá de Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Michaela Gonzaga, filha de D. Pedro I e neta de D. Joao VI, foi batizada, em 1819.

(suponho que o padre imperial deve ter recobrado o fôlego pelo menos um par de vezes entre o "Maria" e o "Gonzaga")

Oficialmente, a Glória é o primeiro bairro da zona sul do Rio, mas eu acho que tem uma baita cara de Lapa e Centro também. Digo isso porque vejo umas construções antiquíssimas, dessas que você para em frente e fica tentando descobrir o que é, ou melhor, o que foi. Dessas que tem umas carrancas de granito que põe medo na gente.

Uma das fachadas que mais me chamou a atenção é a da foto.


É a sede da Igreja Positivista do Brasil, que foi fundada no século XIX, e sobre a qual eu nunca tinha ouvido falar na minha vida. Esse lance de ser governado pelos mortos, pelo que entendi, é o seguinte: os positivistas cultuam a memória dos mortos por meio do legado que deixaram para a posteridade. É a imortalidade subjetiva da alma. Na nave central, há bustos de 13 personalidades da religião, literatura, filosofia, ciência e política, gente tipo Shakespeare, São Paulo e Aristóteles.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Os Hómi Ltda.



Encontrado o lar, o passo seguinte é torná-lo habitável. Motivo de alegria, finalmente, depois de meses e muita procura, ter achado um teto para chamar de meu. E ficar imaginando onde vai ficar cada coisa, como deixá-lo mais aconchegante.

Despesas à vista, mas com a satisfação de estar empregando bem o suado soldo, pensando no benefício que virá.

Nesta etapa, os hómi entram em cena.

A moça depende dos hómi para transportar a mudança do Paraná para o Rio de Janeiro. Depende dos hómi que vão entregar os eletrodomésticos SEM MARCAR HORA.

Depende do hómi que converte fogão para gás de rua - conversão de fogão dispensa a leitura das Sagradas Escrituras, ao contrário de conversão de gênti.

Depende do hómi que instala varal de teto e prega armário na parede. E que deu os canos três vezes consecutivas entre segunda e quarta-feira para terminar o serviço.

Depende do hómi que monta guarda-roupa e que, se Deus quiser, vai depois do feriadão.

O problema é conciliar tudo isso com o pouco tempo que sobra depois do expediente. Tem que pedir peloamordeDeus se dá para entregar após às 17 horas, se dá para tentar, mais ou menos, marcar hora (por favor, por favor).

***

Conselho do hómi do fogão, ao detectar que eu não estava com gás no apê. "A senhora liga lá na Ceg e fala que vai morrer se não tiver gás, que tem gente com úlcera na família e que TEM QUE cozinhar em casa. Senão, vão demorar um mês."

Obrigada pelo conselho, hómi. Meda.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Deveras aprazível

Rio de Janeiro, hoje.





domingo, 31 de janeiro de 2010

O ramerrão

A tarefa naquela manhã dos anos 90, que pode ter sido de alguma série do ginásio, hoje Ensino Fundamental, era interpretar algumas frases. A professora de redação havia escrito várias na lousa, e acho que era um jeito de matar aula. Bem, as aulas dessa professora eram intermináveis janelas no nosso horário...
Parecia não haver critério nem rigor estilístico. O repertório variou de uma sentença que tinha "a mosca da minha sopa" no meio até frases de escritores da literatura nacional. Uma em especial em marcou.

"A vida é um ramerrão solitário."

Que eu me lembre, era atribuída a algum autor.
Hoje, mais de uma década depois, procurei no Google e não achei o dono. Não acharia estranho se a frase não estivesse reproduzida fidedignamente, aliás, seria a cara dessa professora se fosse quase a frase original.
Para mim, ramerrão solitário dá uma ideia de uma multidão solitária, um bando de gente indo para o mesmo lugar, porém, isoladamente. Uma espécie de Círio de Nazaré pagão - todos vão juntos, mas cada um olhando para sua própria dor. Digo isso com base na cara da palavra. Acredito que as palavras têm personalidade própria, inclusive, há aquelas que só saem casa de cartola e casaca, de tão requintadas que são. Por outro lado, há aquelas descartáveis feito um lanche do McDonalds.
É o caso da palavra diferenciado. Pobre coitado, um dos verbetes mais promíscuos do vernáculo.

Não tenho um dicionário aqui (que falta faz minha casa!) e, uma googlada mixuruca afirma que ramerrão que dizer tarefa rotineira e enfadonha. Se for isso mesmo, minha interpretação perde o sentido.

Mas permanece a figura do Círio pagão.

***

Foi graças a essa professora que me tornei jornalista.
Ela era tosca, mas dava umas dentro.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Os insetos&eu

Eu tenho muitas histórias com insetos. Um dia, quando era estudante de jornalismo na UEL, uma abelha se enroscou nos meus cabelos, em plena aula. Sacudi com a mão para ver se a abelha se mandava, levei uma picada e ganhei o indicador inchado por uns três dias. Tempos depois, enquanto fazia fotos com a câmera da faculdade, outra abelha se prendeu em mim. Ahá, pensei, não vou sacudir. A bicha saracoteou até cansar e acabou por picar meu couro cabeludo. Foi pior que o dedo inchado: fiquei com os gânglios atrás da orelha inchados e não conseguia nem colocar óculos, de tão dolorido.
Lá pelo terceiro ano da faculdade, um bichinho minúsculo e desconhecido me picou no pé. Dessa vez o corpo todo reagiu, de uma vez só, e fui parar no Hospital Universitário.
Desde então fui atacada por outros insetos e tive alguns pequenos inchaços. Nem estranho quando isso acontece.
Mas, ontem, a criatura abaixo investiu contra mim.


Medonho, alado, listrado e com a bunda a pulsar, cheia de veneno.
Foi na perna, e senti dor do dedinho ao quadril. Achei que ia ter outro troço desses de ir para o hospital mas, passado o pavor e a dor iniciais, vi que não era grave. Por questão de honra e segurança dos habitantes da casa, prendi o pesadelo com listras dentro de um copo de Nutella.
Ele está lá até agora, encostado em um canto do corredor. Dei boa noite e bom dia. Tudo o que ele faz é escalar as curtas paredes de vidro e escorregar em seguida.
Tenho um prisioneiro de guerra, e não sei que destino dar a ele.
Gostaria de saber que bicho é. Parece um marimbombo tamanho GG. Será que é vespa?
Ao vê-lo preso no copinho, fico com pena. Deve estar ruim lá. Sem ressentimentos pelo ataque.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A União faz memória

Muito antes da internet existir, antes de os programas de culinária serem tão interativos, antes mesmo de o açúcar de tornar um ingrediente abominável na dieta das pessoas saudáveis e esbeltas, uma rede de donas-de-casa disseminava receitas gostosas e engordativas.
Elas trocavam segredinhos de forno e fogão entremuros, ensacando as compras em cartuchos de papel pardo no supermercado. Davam dicas, mas não entregavam o ouro, afinal, descobrir a quantidade exata e maneira correta de misturar e levar ao fogo os ingredentes poderia significar ter sua receita eleita. Eleita para figurar nas páginas de um livro, ao lado de outras delícias, talvez fotografada em um cenário cuidadosamente preparado para, em um segundo, transportar o leitor para um chá na casa da avó, da tia ou da vizinha-boleira-de-mão-cheia. Pode ser chá, café ou conhaque, a bebida não importa muito, desde que servida numa xícara ou cálice de desing que não deixa dúvida: os anos eram os 70 e 80.
À cata de uma receita gostosa e não muito difícil para a ceia de Natal, fui buscar inspiração nos livros de receita União que a minha mãe guarda. Encontrei o "Chiffon do Coração" num livro que foi presenteado a minha mãe em 1975, por uma amiga já falecida. Eu simplesmente adoro folhear esse livros e me demorar na fotografias e no cheiro das páginas. São bolos, tortas, mousses, rosquinhas, toda sorte de doces servidos em travessas, adornados com guardanapos, açucareiros e espátulas cujos arabescos não deixam dúvidas da época.
Cada receita vem acompanhada do nome de quem a enviou com endereço. O "Chiffon do Coração" é atribuído à dona Rosina Aquino, da cidade de Lorena-SP. Ah, os tempos eram outros! Tenho minhas dúvidas se, nos atuais tempos bicudos as donas-de-casa deixariam seus nomes com endereço completo serem publicados num compêndio de receitas. O risco é, dias depois da publicação, a dona-de-casa começar a receber malas-direta com propaganda de utensílios de cozinha. É daí para pior. Algum golpista poderia tentar passar alguma lorota por telefone, usando como mote a tal da receita.
É um prazer extra ver a autoria das receitas. Descobri que as moradoras de Cornélio Procópio-PR eram assíduas colaboradoras dos livros de receita da União. Aliás, há uma receita que foi enviada por uma moradora da rua Professor João Cândido, em Londrina, por onde tantas e tantas vezes passei nos últimos nove anos. "Torta de Castanha do Pará" é a obra da dona Elizete O. Nascimento, que via a João Cândido do sexto andar. Na época da edição do livro, duvido que minha mãe soubesse que existia um lugar chamado Cornélio Procópio e, garanto, não imaginava que iria se afeiçoar tanto a Londrina.
Qual seria a utilidade de divulgar o endereço da doceira? Dar mais credibilidade e autenticidade na hora de uma amiga fazer inveja para outra, exibindo como troféu sua receita impressa e devidamente creditada? Ou permitir que as cozinheiras se visitassem, levando e trazendo segredos de forno? Acho improvável a segunda hipótese. Penso que o que deveria rolar, na verdade, era a troca de receitas pelo correio. Uma dona-de-casa de Tubarão-SC enviando receitas que ficaram fora do livro para uma colega sem rosto de Itu-SP, que escreve relatando que adorou a receita publicada e gostaria de receber outras por que seu marido provou e elogiou aquela.
Gosto tanto desses livros porque me falam de uma época em que a vida era mais simples, em que havia tempo para a mulher burilar seus talentos na cozinha. Um tempo em que havia gente suficiente nos lares para provar e dar palpites no resultado. Um tempo em que cortar o açúcar era apenas para os diabéticos.
A cada página uma pérola sobre os benefícios do açúcar. Tipo essa:
"Açúcar é energia, é o 'carvão dos músculos', na sábia expressão de Claude Bernard. Criança convenientemente suprida de açúcar é criança saudável, corada, bem disposta."
Sempre puxando a brasa para a sardinha da UNIÃO:
"Cuidado ao preparar a mamadeira do seu filhinho! Use somente açúcar UNIÃO, puríssimo, refinado a mais de 120 graus."
Pra mim, é quase como rever um álbum de fotos de uma época que deixou saudades.
***
Chiffon do Coração nada mais é que uma mousse de chocolate meio amargo.
Vamos ver se consigo executar a prescrição de dona Rosina.

domingo, 6 de dezembro de 2009

atchim

Estou com um daqueles resfriados liquefeitos. É só eu beber um copo de água que a coriza começa, bem chatinha. Enquanto estou com dor de cabeça e no corpo, o sol brilha e as pessoas mergulham no Oceano Atlântico.
Daqui de casa ouço os urros que vêm do Maracanã. Daqui a pouco o jogo começa. Acho bonito, e até gostaria de ter ido ao estádio, mas não compartilho.
Talvez um certo descompasso momentâneo, um delay, com a Cidade Maravilhosa.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Mudança de hábito

Tá quente. Muito quente.
A rosa amarela murchou devido ao calor. A violeta, idem.
O gadget do meu computador informa que está 24 graus agora no Rio de Janeiro, com chuva, mas a realidade me faz discordar. A sensação térmica dentro de casa é de uns 30. E NÃO está chovendo.
Por isso, aderi ao ventilador. Ele está lá mesmo, no teto, por que não liga-lo? É que eu nunca fui amiga de vento, é só ligar ventilador que meu nariz tranca. Porém, agora, isso passou. Bem interessante.
Outro hábito recém-adquirido é tomar água gelada. Nunca fui fã. Mas a água sai morna do filtro nesses dias (e noites) escaldantes. Do tipo que dá dor de barriga de tão quente. Então, agora tenho sempre uma pedrinha de gelo no copo de água. É um gelado diferente da água que sai da geladeira. Sei lá... um gelado mais refrescante e menos intenso.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O cheiro do aroma da essência

É possível que eu tenha pesadelos hoje ao me deitar. Visitei alguns apartamentos no final da tarde e encontrei pessoas e cenários medonhos. Mas o que mais me desgosta nos apartamentos que busco para alugar é o cheiro. Já começa na rua. Na zona sul do Rio tudo é velho, e o aroma de criolina, misturado ao calor úmido, chega em lufadas.
No Largo do Machado, assim que dona Zilda, a síndica, abriu a porta, senti um cheiro velho de umidade. Mas o apartamento é ajeitado, tem uma micro cozinha que, embora micro, comporta os eletrodomésticos. E tem uma sala grande, com taco brilhoso. E ainda tem uma pequena área. Embora, ao acender o lustre da sala, eu tenha tido uma péssima impressão e pensado que, à noite e sozinha, eu certamente sentiria medo do lustre. Um lustre pesado e antigo, de bronze, a me testemunhar. Mas ainda assim, estava valendo a pena. Porém, uns passos adiante, no quarto, encontro a origem do olor: manchas e tacos estufados no canto do cômodo. Impregnada pelo cheiro de coisa mau cuidada, olhei para dona Zilda, que me olhava por detrás de uma armação azul-marinho. Acho que não dá, eu disse, enquanto olhávamos para o teto: a mancha começava, bem discreta, no teto, e se imiscuía paredes abaixo.
Hoje foi um entra e sai de portas pantográficas. Aquelas portas de elevadores que parecem uma sanfona de metal. No Catete, cheguei a olhar um conjugado. A melhor coisa era a parte de fora. Dentro, além do pouco, pouquíssimo espaço, havia o buraco reservado para o ar-condicionado que é, literalmente, um buraco na parede. Em outro, fiquei estupefacta. Havia uma sala minúscula, uma sacada idem, um banheiro ibidem (com o chuveiro em cima do vaso) e uma coisa, no canto da sala, que era um arremedo de cozinha. Tudo velho e fedido. Notei uma saída para gás, onde, imagino, deve ser acoplado um mini fogão, e, o mais absurdo: uma cortina no-jen-ta, logo a frente, na tentativa de separar os ambientes. Se fiquei 25 segundos lá dentro, é muito.
A busca continua, companheiros.

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Amanhã não tem educação física, mó do apagão. Precisa economizar água.

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A culpa é da Madonna. "Jesus, apaga a luz", teria dito a diva.
Aliás, chamada de capa do Meia Hora ontem: "Ai, Jesus! Madonna conheceu a sogra."

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Memórias do coração

Adoro gaúchos. Como nunca fui para o Rio Grande do Sul, todos gaúchos que conheço estão fora de sua terra natal. Daí eu sempre ser testemunha de um apreço exagerado pelas coisas do sul, da camisa do Grêmio à cerveja Polar, da música gaudéria às expressões da terra.
Minha amiga gaúcha que mora em Curitiba é a mais recente no meu rol de gaúchos fora da "pátria". No carro dela toca Cidadão Quem, Wander Wildner, Cachorro Grande e umas músicas gaudérias que nunca ouvi na vida e mais algumas coisas da região sul, como Armandinho - que é gaúcho, mas mora em Santa Catarina.
Ok, Armandinho não é nenhum primor musical. O que conheço dele são as músicas que eu ouvia enquanto esperava a fila do Super Muffato andar em Londrina, e o DVD do Armandinho tocava ad infinitum no mostruário de TVs de LCD. É só. E nesse contato rápido no supermercado a impressão que tive não foi das melhores.
Mas fui surpreendida essa semana, ao andar de carro com a amiga gaúcha. Um refrão não me saía da cabeça. A música chama “Outra noite que se vai”, e deve ser bem conhecida. Mas como eu não conheço Armandinho, poderia pensar que era alguma coisa dos anos 90, talvez 80, que eu tinha registrado no HD mental.

Então me diz alguma coisa
Toca um Beatles na guitarra
Pra lembrar
daquele tempo
Pra sempre ou só por um momento
Me dá um beijo na boca
E depois me leva pra tua casa

Não toco guitarra. Mas tenho muitos “tempos” para recordar. A questão é onde guardar as memórias do coração, que às vezes até doem de tão saudosas?
Os gaúchos sabem. Não guardam. Vivenciam sua memórias no dia-a-dia, a cada jogo do Grêmio (ou Internacional, vai saber), a cada gole de chimarrão.
De certo modo, minha tranquilidade em saber que não vou pegar o sotaque carioca vem daí, do apreço às minhas raízes paulistas e um pouco paranaenses. Considero impossível que eu venha a falar araxxxtado. Nesse caso, até a frase “nunca diga nunca” me parece descabida. E considero impossível que eu deixe de sentir saudade de Londrina, minha casa, e das pessoas daqui. Ainda bem.
Cada rosto conhecido que encontro representa um alívio.